Categorias de Poderes Psíquicos

Hula Silhouette Fine Art Print - William Waterfall:

A classificação das práticas psíquicas dos kahunas apresenta um certo problema porque as categorias ocidentais são baseadas em pressuposições muito diferentes. Para os kahunas, todas as práticas kahunas são apenas variações de um processo básico que utiliza o pensamento, a energia e a matéria etérea, ou para comunicar ou mudar condições, ou fazer as duas coisas ao mesmo tempo. Além disso, eles acreditam que tais práticas envolvem extensões de nossos sentidos existentes, não “extras”. Entretanto, para o propósito de nossa discussão, dividirei as práticas psíquicas kahunas nas áreas de telepatia, clarividência, pré-cognição e psicocinesia. O leitor deve compreender, porém, que essas são características de função, não de natureza, e na prática real elas se sobrepõem. A. interpretação kahuna delas difere da ocidental, em muitos aspectos.

Telepatia (Una)

Nesse uso kahuna mais estrito, una (telepatia) é a transmissão de pensamentos ou ideias por uma ação da mente e da energia psíquica. Refere-se somente a enviar, não receber, e apenas à telepatia intencional. Os kahunas acreditam que a comunicação mental é uma função natural de todos os seres humanos, e que está em constante operação, apesar da limitada percepção das pessoas. Essa forma de comunicação inconsciente é chamada de ike hanau, que pode traduzir-se como “instinto”. Una é diferente, pois é aplicada com o uso da vontade, e o processo é muito simples. Você focaliza sua atenção na pessoa com quem quer fazer contato, acumula um suprimento de mana, fixa claramente o pensamento que quer transmitir, e controla o caminho pela força da vontade. A efetividade prática, porém, só é alcançada através do exercício disciplinado e de um apurado conhecimento da natureza da mente, da energia e da matéria. Nesse sentido, não é diferente de nenhuma outra habilidade que exija prática e conhecimento. Na cura, um kahuna usará a telepatia intencional para transmitir sugestões positivas de cura ao paciente, além de quaisquer outras técnicas que possam ser usadas. Os kahunas ensinam que essa habilidade não é afetada pela distância; mas, ao se transmitir a um paciente fora do campo de visão, é ainda mais importante ter uma imagem muito nítida dele. Antigamente, eram usados pedaços de objetos pessoais do paciente, para incrementar a concentração; hoje em dia um kahuna pode usar uma assinatura ou fotografia.

Clarividência (Kilo/NanaAo)

A palavra clarividência se refere a dois fenômenos distintos: a habilidade para receber informações mentalmente (kilo); e a habilidade para ver auras e formas livres de energia (nana ao).

A recepção mental inclui a ideia ocidental de receber mensagens telepáticas e a técnica conhecida como “psicometria”, um processo pelo qual alguém recebe informações sobre pessoas e eventos a partir de um objeto que, de certa forma, esteja a eles relacionados. Também se incluem aí aquelas formas de clarividência nas quais é usada uma ferramenta intermediária, como uma bola de cristal, leitura de cartas e a interpretação de augúrios. Todas elas usam a mesma técnica básica para se alcançar um estado de comunicação mental (ike papalua) através de vários exercícios de concentração e dissociação: focar a mente na pretendida fonte de informação; estar alerta à entrada de informação na forma de imagens, sensações e sentimentos durante o período da focalização; traduzir essa entrada de dados em uma saída significativa. Aplicadas à cura, essas práticas são usadas basicamente para diagnosticar as causas mentais e comportamentais de doenças e para localizar as áreas de tensão no corpo. Percebemos o problema de usar categorias ocidentais quando os kahunas não veem nenhuma diferença entre receber informações telepáticas de um ser humano ou clarividentes de uma rocha.

Qualquer pessoa pode ver auras e campos de energia, se souber o que procurar e como procurar, mas a maioria não tem esse conhecimento. Nana ao, porém, inclui a habilidade para interpretar aquilo que se vê. Os kahunas que praticam nana como cura, usam-na para determinar áreas de tensão no corpo. Eles também avaliam estados emocionais interpretando visualmente as cores que aparecem e/ou as áreas de relativa luz e sombra. Como uma variação, alguns kahunas usam o sentido do tato em vez da interpretação visual, e isso é chamado de haha. Nesse caso, o kahuna pode passar as mãos sobre o corpo do paciente ou alguns centímetros acima da pele e sentir áreas de “maciez” ou “dureza”, esta última indicando regiões com problemas. Um kahuna praticante de clarividência raramente conta só com isso, mas inclui também a telepatia, como parte do processo.

Pré-cognição (Wanana)

A pré-cognição — arte da adivinhação – é um conceito que assombra e ao mesmo tempo frustra os cientistas e filósofos. Entretanto, o peso das evidências demonstra que aparentemente é possível ver o futuro e ter um pré-conhecimento de eventos ainda por vir, embora não exista uma prova de alguém que faça isso com cem por cento de acuidade. De fato, a incorreção das previsões paranormais deixa os pesquisadores ainda mais perplexos. A grande pergunta é por que algumas previsões são altamente corretas, outras parcialmente, é outras totalmente incorretas, ainda que todas sejam feitas pela mesma pessoa.

Adivinhação, ou pré-cognição, é uma prática kahuna muito comum, e todos os kahunas adeptos a usam, pelo menos até certo ponto. Por ser incluída no treinamento kahuna, não nos surpreende que as raízes da língua contenham informações definitivas sobre a natureza do tempo e da pré-cognição. A principal palavra para adivinhação, wanana, significa “observar os padrões do tempo”.

Nossos sentidos normais e psíquicos nos dizem que o passado é constituído de eventos já ocorridos, e o futuro, de eventos ainda não ocorridos. Parece lógico deduzir, portanto, que o presente consiste em eventos que estão ocorrendo e sendo percebidos. A ideia do tempo presente, porém, apresenta um problema para aqueles que se acostumaram a pensar em passado e futuro como conceitos objetivos. Algumas filosofias orientais afirmam que o presente é uma ilusão porque o tempo é um fluxo contínuo do passado até o futuro. Num certo sentido, alguns cientistas ocidentais concordam, dizendo que, como o presente não pode ser medido objetivamente, ele é apenas uma interface entre o passado e o futuro. Em contraste, a visão kahuna do presente é que ele envolve a gama de eventos em que estamos no processo de perceber e com os quais podemos interagir. Uma expressão usada para designar o presente é i keia manawa, significando “neste fluxo de mana”, ou “nesta autoridade de espaço/tempo”. Essa idéia nos dá uma visão mais ampla do presente, a qual se encaixa mais com nossas percepções.

A palavra mais significativa para o passado é wa’ae’oia, que significa “o período de concordância duradoura”. Ela reflete a ideia de que o passado é aquilo que lembramos dele e o que concordamos que ele é, bem como as lembranças existentes no presente. Podemos compreender melhor a ideia kahuna sobre adivinhação na frase usada para futuro: ka wa mahope. Literalmente, significa “o tempo que vem depois”, mas mahope também significa “resultado, consequência”, indicando o ensinamento kahuna de que o futuro é um resultado do que acontece no presente. Outra palavra para o presente, ‘ano, contém essa ideia também. Seus outros significados são “semente, prole”. Os kahunas ensinam que o presente é o fruto do passado, e a semente do futuro. Portanto, ao examinarmos com atenção o presente, podemos prever o futuro. Não há necessidade de desviar ou transcender o tempo, pois essa seria uma possibilidade duvidosa, de qualquer forma. O futuro cresce a partir do que está acontecendo agora.

Entretanto, isso não implica nenhuma espécie de determinação, porque o momento atual é dinâmico, fluídico, não estático. Toda mudança de pensamento ou ação introduz novas variáveis que podem mudar o curso do futuro, e uma dessas variáveis é o próprio adivinho. Os kahunas sabem que o mero fato de expressar uma previsão já afeta o futuro. Quase todas as palavras Huna relativas a profecias contêm alusões a isso. E os kahunas também sabem que quanto mais informações tivermos sobre o presente, mais corretas serão nossas previsões. Portanto, eles não limitam suas informações ao que existe fisicamente, mas abrem as mentes, de maneira telepática e clarividente, para coletar informações de tantas fontes quanto forem possíveis.

Assim, a adivinhação consiste em expandirmos nossa percepção para incluir aspectos invisíveis do momento atual, bem como conhecimento comum, e depois tirarmos conclusões quanto ao mais provável resultado em qualquer tempo futuro. Essa coleta psíquica de informação costuma ser um processo subconsciente, ou seja, a massa de informações não precisa ser acessível à mente consciente. Tendo recebido a ordem de coletar informações, o subconsciente do adivinho faz uma espécie de “estimativa provável” do futuro e a apresenta ao consciente em forma de palavras ou imagens. Os kahunas dizem que esse é o processo empregado por todos os adivinhadores paranormais, quer eles saibam disso quer não. A forma mais correta de previsão é a referente ao futuro próximo ou àqueles eventos cujas “sementes” passadas já germinaram abundantemente, pois nesses casos há menos oportunidade para a introdução de novas variáveis. A verdadeira capacidade do adivinho kahuna está em sua habilidade para receber e interpretar informações, sem preconceitos. Dependendo de quanto ele consegue fazer isso, suas previsões serão as mais corretas possíveis, num mundo de potencial infinito. (Falta nos modernos videntes essa última habilidade, pois eles preveem aquilo que gostariam que acontecesse, e não o mais provável.)

Quando usada num contexto de cura, a adivinhação é feita para verificar o curso potencial de uma doença e o possível resultado de vários métodos de tratamento. Com base nessas informações, o kahuna prossegue com seu plano ou o modifica. Ele usará as mesmas informações para dar conselhos ao paciente sobre como fazer o auto – tratamento e dirigir a própria vida.

A ideia de influenciar conscientemente o futuro é inseparável da adivinhação kahuna. Tendo visto os prováveis resultados dos pensamentos e das ações de hoje, ele pode tomar medidas para mudar esses mesmos pensamentos e ações, ou seja, propositadamente introduz novas variáveis para mudar o provável resultado. E nesse ponto que a adivinhação se funde com a psicocinesia, em termos kahuna.

 

Psicocinesia (Kalakupua)

Os pesquisadores ocidentais definem a psicocinesia como “fazer um objeto mover-se só a com a força da vontade”, mas essa definição limitada não serve para os kahunas. Em primeiro lugar, eles ensinam que só a vontade (‘ono) não é capaz de fazer nada. Também é necessário ter imaginação (no’ono’o) para proporcionar o padrão do movimento, energia (mana) para suprir o poder, e um meio reativo (aka) através do qual o poder pode operar. Sem esses, nem a mais intensa vontade funciona. Na verdade, a existência da psicocinesia inconsciente, como no fenômeno poltergeist, parece excluir totalmente a necessidade da vontade. Em segundo lugar, na categoria de psicocinesia os kahunas incluiriam todas as práticas nas quais o mana dirigido pela mente é usado para produzir efeitos sem uma intervenção física direta. A noção deles é que atividades tão variadas como os movimentos não-físicos dos objetos, a cura psíquica, controle psíquico do clima e a mudança do futuro são realizadas pelo mesmo processo. Só o intento difere. Como acreditam que o mundo físico é um reflexo do pensamento, os kahunas acreditam que todas as mudanças em condições são causadas pela psicocinesia, estendendo sua interpretação, e que isso é um processo natural empregado inconscientemente por qualquer pessoa, em menor ou maior grau.

Destruição Psicocinética (Ana-ana)

Embora aborde a cura kahuna, este texto não seria completo sem uma clara explicação de como se pode prejudicar outra pessoa pelo mesmo processo. Os kahunas ensinam que a única diferença entre cura psicocinética e destruição psicocinética é o intento do praticante, pois o processo usado para ambas é quase o mesmo, e o resultado final é determinado pelos tipos de pensamentos e emoções em ação. Essa explicação não tem a intenção de assustar nem ensinar alguém a abusar de suas habilidades psíquicas. O objetivo aqui é esclarecer um processo raro e há muito tempo mal compreendido, para que você veja que há menos coisas a temer do que imagina.

Praticamente todas as culturas têm histórias de bruxos e feiticeiros que podem causar mal a suas vítimas à distância. Infelizmente, no Havaí a prática é associada aos kahunas em geral. Mesmo Max Long, aquele incansável pesquisador de conhecimento Huna, achava que os kahunas, em determinada época, usavam a oração da morte para punir os malfeitores. Na verdade, só kahunas renegados e independentes, feiticeiros pervertidos, recorriam a essa prática.

Seria um erro grave considerar a destruição telepática meramente uma superstição baseada só no medo. Experiências bem-sucedidas com a transmissão telepática de ideias, emoções e diretrizes, feitas por pesquisadores de parapsicologia, fornecem uma base níti-da para a aceitação do conceito, por mais repugnante que isso seja. O termo ana-ana, usado em havaiano, implica fazer algo em excesso segundo um plano, e é usado genericamente para englobar todas as práticas que poderiam ser chamadas de “magia negra”, mas principalmente a assim chamada oração de morte. Max Long registrou a seguinte oração de morte, feita como uma’ordem ao “deus” Lono. Essa tradução só faz sentido no contexto dos significados alternados das palavras em si, e se compreendermos o pensamento kahuna sobre a natureza da mente.

O Lono

Ouve a minha voz.

Este é o meu plano:

Lança-te sobre _ e entra;

Entra e envolve;

Envolve e conserta.

A oração tinha a dupla função de estimular o subconsciente do praticante e enviar uma forte sugestão telepática à vítima. Claro que o processo todo envolve muito mais que a simples recitação de uma oração.

O praticante ana-ana estabelece primeiramente um contato mental com a vítima pretendida. Isso pode ser feito diretamente, conjurando-se uma imagem da vítima na mente do praticante, ou da forma mais comum, quando ele segura algo pertencente à vítima. A segunda técnica se baseia na ideia de que o padrão etéreo de um indivíduo deixa uma impressão invisível e duradoura no campo energético de qualquer objeto com que tenha contato. Essa impressão costuma ser simbolizada em Huna como um fio pegajoso que liga o objeto e a pessoa. Outra ideia é que essa impressão pode ser “lida” por um paranormal habilidoso e também usada para fazer contato mental com a pessoa que manuseou o objeto. Por esse motivo os antigos chefes havaianos faziam questão de que os fios cortados de seus cabelos, as aparas de unhas, excreções e até os ossos depois da morte fossem escondidos ou jogados fora de uma maneira que nenhum feiticeiro pudesse obtê-los. Isso, porém, não passa de superstição, pois um paranormal treinado não precisa de coisa física nenhuma para fazer esse tipo de contato, embora objetos assim sejam frequêntemente usados porque facilitam a concentração.

Os medos e a culpa da vítima formam a base do “gancho” psíquico que o praticante estabelece por meio da transmissão telepática de pensamento e emoção, e o sucesso de ana-ana se baseia no exagero e na distorção desses sentimentos. Quanto mais medos e culpas dominarem seus pensamentos, mais rapidamente a vítima sucumbe.

Como o intento do feiticeiro ana-ana não é provar um método, e sim alcançar um fim, qualquer técnica que possa acelerar o processo também é usada. Assim, se uma vítima sabe que estão usando ana-ana contra ela, isso age como uma forte sugestão para enfra-quecer sua resistência. Na verdade, em alguns casos, o feiticeiro não precisa fazer mais nada, pois o verdadeiro ato de destruição é executado pela própria vítima, o que fez nascer a crença ocidental de que nada mais se envolve no processo. Em outras ocasiões, o praticante pode usar uma técnica através da qual um objeto é “energizado” com um pensamento emocionalmente carregado, correspondente aos medos e culpas da vítima, e colocado perto dela, de preferência em suas mãos. Esse tipo de objeto, quando usado com esse propósito, é chamado de “isca” (maunu). Também pode afetar algumas pessoas que se encontrem próximas à vítima e que sofram de algum grau dos mesmos medos e culpas.

O feiticeiro ana-ana pode usar truques, sugestão, rumores, veneno ou qualquer outra coisa, para fazer a vítima sucumbir. Mas a parte psíquica do processo é quase idêntica àquela usada pelos kahunas curandeiros para a cura a distância. As principais diferenças são o intento, a natureza dos pensamentos e emoções usados, e o fato de que as forças do recebedor são enfatizadas, em vez de seus medos e culpas.

Felizmente para a humanidade, há três fatores naturais que diminuem os perigos da feitiçaria destrutiva. O primeiro é o instinto de sobrevivência que ajuda a proteger todos, até certo ponto, dos efeitos das emoções e dos pensamentos negativos. Se isso não fosse verdade, a terra já teria sido despovoada há muito tempo. O segundo é o fato de que a feitiçaria ana-ana exige grande dose de habilidade e treinamento, e são pouquíssimas as pessoas que se submeteriam a isso, pois trata-se de algo que envolve um processo desumano extremamente repugnante. O terceiro é o fato de que os feiticeiros destrutivos em qualquer cultura têm uma vida curta porque as poderosas emoções negativas que eles geram acabam destruindo suas próprias mentes e corpos. Apesar das histórias e lendas populares, não existem bruxos malignos velhos. Eles apenas parecem velhos. Um quarto fator importante é que aqueles que praticam as várias formas de ana-ana e até outras mais amenas, como a “magia do amor” (hana aloha), nunca passaram impunes.

Alguns kahunas curandeiros se especializam em determinados modos de proteger os fracos contra influência prejudicial.

Simbologia

Ao ensinar e praticar suas artes psíquicas, os kahunas fazem grande uso de ferramentas e símbolos metafóricos. Diferentemente de alguns ocultistas ocidentais, que podem atribuir propriedades mágicas inerentes às ferramentas físicas de seu ofício, os kahunas sabem muito bem que o propósito primário de tais ferramentas é estimular a produção de mana pelo subconsciente, e direcionar seu fluxo em determinado sentido pela mente consciente. É evidente que qualquer objeto específico pode ser infundido com um suprimento extra de mana, o que pode torná-lo um estimulante mais eficaz; mas as ferramentas usadas pelos kahunas são mais honradas pelo duplo sentido de seus nomes do que por qualquer eficácia natural que possam ter.

Por exemplo, uma ferramenta tradicional usada em muitos antigos rituais kahuna era uma bebida narcótica feita de raiz de awa (kava). A lógica por trás disso era que a palavra awa significa uma “experiência desagradável ou trágica e também um canal ou passagem através de um recife até um porto tranqüilo”. Ao oferecer o awa aos deuses, o kahuna estava na verdade realizando um ritual para convencer o subconsciente de que as experiências amargas estavam sendo substituídas pela paz interior. Outra ferramenta ainda usada no Havaí para várias práticas, geralmente de proteção, é a folha de ki (ti), porque outros significados de ki são “força, ataque, amarrar e tirar”.

Animais, plantas, flores, peixes, pássaros, pedras e outros objetos eram todos utilizados de acordo com os vários significados em seus nomes, independentemente de seu uso como fonte extra de mana ou por quaisquer características químicas ou nutricionais. Os kahunas sabem que o poder real de uma palavra está em sua significância psicológica. O som, sozinho, pode estimular um fluxo de mana, mas o som formado em uma palavra com impacto psicológico tem um efeito muito maior.

Tanto para ensinar quanto para aprender, geralmente é útil aplicar metáforas. Ao aprender a teoria da eletricidade, por exemplo, um estudante pode ouvir que a eletricidade é como água passando por um cano, o fluxo é parecido com uma corrente, à pressão é como uma voltagem, e a fricção contra o cano é parecida com a resistência. Os kahunas também usam metáforas de uma maneira semelhante para explicar os diferentes aspectos dos conceitos que ensinam.

Pensamentos

Pacotes, agrupamentos, sementes, redes, teias, quaisquer instrumentos contundentes, clubes, brotos e filhotes de animais, peixes e flores.

Poder

Água, chuva, nevoeiro e neblina, ondas e vagas, fogo, comida, ramos ou galhos, e cores (especialmente a vermelha).

Matéria (etérea)

Uma ponte, arco, um arco-íris, uma caverna ou gruta, corda, fio ou cordão, sombras, um embrião, articulações do corpo, ganchos e nuvens.

Práticas Psíquicas

Níveis de Consciência

Os kahunas reconhecem vários modos de perceber a realidade, e também usam vários níveis de percepção ao realizar suas práticas, cada qual com seu conjunto de regras ou estrutura de crenças. Com isso, eles seguem o conceito psicológico de que vivemos num universo multidimensional, e que podemos alcançar diferentes efeitos e experiências, mudando nosso foco de uma dimensão, ou nível, para outra. Esses níveis supostamente coexistem, de modo que a mudança de um para outro envolve apenas um desvio de atenção. É algo que pode ser comparado a viver num apartamento com um único cômodo, que pode ser usado para dormir, jantar, ler ou fazer algum trabalho criativo. Enquanto fazemos uma coisa ou outra, o cômodo não muda, mas apenas o seu uso e o conceito que temos dele. O isolamento é apenas uma ilusão conveniente. Assim, os kahunas se sentem à vontade para desenvolver qualquer tipo de estrutura explanatória que sirva aos seus propósitos. Com isso em mente, vejamos os quatro níveis de WK:

Primeiro Nível: Físico (Ike Papakahi)

Este é o nível do que poderia ser definido como a experiência física bruta. Refere-se ao reino cotidiano comum que conhecemos e no qual trabalhamos com a visão, audição, tato, paladar, olfato e sentimento. Embora não seja irreal, este é um nível de percepção apenas parcial. É um nível pragmático onde se constroem casas, consomem-se alimentos e as pessoas se relacionam com certa independência. Sua característica dominante é o senso da experiência objetiva, de um isolamento entre as pessoas, objetos e eventos.

Segundo Nível: Psíquico (Ike Papalua)

Esse é o nível da maior parte da experiência psíquica. Nesse estado, a experiência objetiva não é definida de maneira tão acentuada, pois nele você pode comunicar-se com o seu ambiente e influenciá-lo de modos que não seriam possíveis em ação estrita do primeiro nível. A subjetividade se torna mais importante, mas ela é usada como meio de atuar no mundo exterior. Daqui, você pode usar técnicas mentais para criar eventos objetivos.

Terceiro Nível: Relacionai (Ike Papakolu)

Este é o estado da inter-relação ou da relatividade. Tempo, espaço, matéria, energia, humanos, plantas e animais se tornam conceitos relativos que interagem constantemente e que não têm significado, exceto em relação uns aos outros. Enquanto os dois primeiros estados são orientados primariamente pela ação, este e o seguinte são mais orientados pela informação. Por exemplo: um adepto kahuna pode usar este estado para aprender a verdadeira natureza da doença de uma pessoa, mudar para o segundo estado a fim de realizar uma cura psíquica, e voltar depois ao primeiro para dar uma massagem ou um remédio de ervas, ou ainda para fazer um ritual que impressione o paciente.

Quarto Nível: Místico (Ike Papakauna)

Este é um estado de percepção mística da unicidade do universo. Alguns escritores o chamam de consciência cósmica, e, embora a vivência desse nível possa alterar o modo como uma pessoa vê a vida e resolve agir a partir de então, é um estado puramente subjetivo e não pode ser usado de nenhuma maneira “prática”. Como exemplo, se um kahuna, sem nenhum meio de proteção física, deparasse com um leão devorador de homens, poderia usar o segundo nível para influenciar o animal telepaticamente e mandá-lo embora, e poderia mudar para o terceiro nível e determinar por que se deixou cair numa situação assim, aprendendo a mudar” seu modo de pensar e não repetir o ato. Se ele mudasse para o quarto nível, compreenderia que ele e o leão estão unidos no grande esquema das coisas e o que quer que acontecesse estaria certo aos olhos do universo. Entretanto, se ele contasse somente com este estado, provavelmente seria devorado. 

Mente, Energia e Matéria

Em sua busca pelo conhecimento dos kahunas, Max Long disse que foi orientado a procurar três fatores: uma forma de consciência (no’ono’o), uma forma de força (mana), e uma forma de substância (aka). Como as três são essenciais às práticas psíquicas kahunas, será necessário uma breve explicação de cada uma. Nesse contexto, a consciência (no’ono’o) é vista na forma de imaginação e tem dois aspectos. Um é o de “olhos do subconsciente” (makaku), a imaginação baseada em crenças atuais. Pode manifestar-se como imagens da memória, sonhos, devaneios habituais ou espontâneos, e até preocupações visualizadas ou expectativas. Esse aspecto é usado na coleta de informações psíquicas (a imaginação não é só fantasia), e geralmente é chamado de “sintonização” por sensitivos e paranormais. O segundo aspecto (laulele) tem na raiz os significados de padrão embrionário e de espalhar ou voar para fora. Trata-se de imaginação conscientemente desejada e dirigida, do tipo que um arquiteto usa antes de colocar suas ideias no papel. Com laulele, o kahuna estabelece um padrão mental para o que ele deseja alcançar, que se encaixe com a ideia filosófica da realidade projetiva. Essa ideia está contida na raiz ‘ono de no’ono’o, que significa “ansiar por algo, desejar obter alguma coisa”. A ideia pretendida aqui é de uma vontade emocionalmente fortalecida e fortemente dirigida. Dos vários termos havaianos equivalentes à palavra inglesa desire (desejo), só ‘ono traz a ideia de intenção de conseguir algo. No’ono’o é, portanto, a imaginação criativa com propósito. Para o kahuna, a verdadeira chave do trabalho psíquico é a força psíquica ou o poder divino (mana). Isso se refere ao poder de qualquer espécie, mas principalmente a confiança e a energia. Como energia, é a força vital que permeia o universo, altamente concentrada nas coisas vivas. Pode ser acumulada, focalizada e transferida de uma pessoa ou um objeto para outro. Mana parece ter muitas das características da eletricidade, do magnetismo e da gravidade, e os kahunas interpretam essas três coisas como variações de mana. A efetividade de todas as práticas psíquicas é determinada por sua abundância ou escassez. Portanto, muita atenção deve ser dada ao modo como se aprende a aumentar conscientemente o suprimento disponível. Um modo de fazer isso é usar a imaginação consciente ou a visualização, imaginando que o mana está aumentando — como, de fato, aumenta. Quando as práticas dessa natureza são feitas, você chega a experimentar sensações físicas no corpo, tais como correntes, formigamento ou calor, todos os sinais do fluxo do mana aumentado. Outro modo é praticar várias formas de respiração especializada e exercícios, semelhantes aos usados pelos iogues. Isso se baseia na ideia de que mana também se encontra no ar e pode ser atraído de maneira mais abundante pela respiração controlada conscientemente. Certos alimentos que contêm fortes concentrações de mana podem ser comidos, e alguns objetos como grandes quantidades de mana podem ser manuseados de várias maneiras. O som na forma de canções, entoações e música também pode ser usado. Sem dúvida, a prática mais comum, porém, é o desenrolar consciente da emoção. Para os kahunas, a emoção é mais do que o mero sentimento; é o movimento de mana no corpo acompanhado por um pensamento específico. A emoção forte é comparada à presença de uma grande concentração de mana. O kahuna proficiente deve ser um mestre das emoções, capaz de gerá-las, dirigi-las e dissipá-las à vontade. Praticamente todas as palavras descritivas usadas em Huna para práticas psíquicas contêm raízes que indicam nitidamente o uso da emoção ao realizá-las. Observe, no entanto, o seguinte: quanto mais mana-como-confiança você tiver, menos mana-como-energia precisará; e quanto menos mana-como-confiança tiver, mais mana como energia precisará. Aka é a “matéria” básica do universo físico, da qual toda manifestação material é formada. A palavra tem o significado de “luminoso, transparente, sombra, reflexo, espelho, essência”. Aka funciona como um espelho que reflete padrões de pensamento no nível tanto psíquico quanto físico. Comparado ao reino do pensamento puro, é uma mera sombra. Os kahunas acreditam que essa “matéria” pode ser formada e moldada por meio do pensamento consciente e inconsciente, e age como um contêiner de mana. Quanto mais mana ela contém, mais densa parece. Algumas formas de aka são conhecidas pelos sensitivos como matéria etérea ou astral, e, sob certas condições no estado psíquico de percepção, ela aparece como algo luminosamente transparente. As características refletoras dessa matéria possibilitam a um curandeiro kahuna mudar as condições, mudando o pensamento. 

A Tradição Interior

A filosofia kahuna pode ser resumida em quatro afirmações, cada uma representada por uma única palavra-chave havaiana:

1. “Você cria a sua realidade (Ike).” Isso significa a sua experiência pessoal da realidade, cada parte dela. Você a cria através de suas crenças, expectativas, atitudes, desejos, medos, julgamentos, interpretações, sentimentos, intenções e pensamentos constantes e persistentes.

2. “Você recebe aquilo em que você se concentra (Makia).” Os pensamentos e sentimentos que você nutre, ciente ou não deles, formam o molde para trazer à sua vida a experiência mais equivalente possível àqueles pensamentos e sentimentos.

3. “Você é ilimitado (Kala).” Não há limites para o seu eu, não há limites entre você e seu corpo, você e o mundo, ou você e Deus. Quaisquer divisões usadas para discussão são termos de função e/ ou conveniência, pois o isolamento é apenas uma útil ilusão.

“O seu momento de poder é agora (Manawa).” Você não está preso a nenhuma experiência do passado nem a qualquer percepção do futuro, pois o passado é apenas uma memória e o futuro uma mera possibilidade. Você tem o poder no momento presente de mudar as crenças limitantes e, conscientemente, plantar as sementes para um futuro de sua escolha. Se você muda o pensamento, muda a experiência. Essas ideias não são exclusivas dos kahunas. Na verdade, tomei as frases emprestadas de Seth/Jane Roberts para traduzir os conceitos Huna porque elas se encaixam muito bem; mas as ideias transmitidas pelas palavras podem ser encontradas em muitas fontes, nos escritos de várias épocas. Entretanto, elas nunca foram muito populares porque declaram que, sem exceção, todo indivíduo é responsável por sua experiência pessoal, e isso pode ser visto como uma coisa subversiva pelos governantes e intolerável pelos governados. Curiosamente, o mal-estar produzido pela implicação de responsabilidade costuma cegar as pessoas para a tremenda liberdade inerente que essa filosofia também contém.

A religião popular do Havaí era repleta de deuses e deusas, fantasmas, fadas, elfos, duendes e espíritos que mudavam de forma a seu bel-prazer e podiam ser amistosos ou hostis com o homem, dependendo da maneira como fossem tratados. Entretanto, essa visão popular era apenas uma distorção do conhecimento kahuna. Quando os primeiros missionários no Havaí tentavam entender a língua dos insulanos, depararam com conceitos tão estranhos ao pensamento deles que certas palavras recebem definições completamente injustificadas. Uma dessas palavras era akua, que foi traduzida como deus. Quando os missionários perguntaram aos havaianos qual nome davam às grandes estátuas que pareciam objetos de veneração, os nativos lhes disseram que o nome delas era akua. Quando perguntaram para quem eles rezavam pedindo conselho, proteção ou a realização de alguma coisa, eles disseram akua. Mas os missionários ficaram confusos quando perceberam que os havaianos usavam o mesmo termo para coisas que não pareciam divinas, incluindo a casta muito desprezada dos escravos. Como escreveu o missionário Lorrin Andrews em seu dicionário de havaiano em 1865, “quando da visita de estrangeiros, a palavra era aplicada a objetos artificiais, à natureza ou propriedade de algo que os havaianos não compreendiam, como um relógio de bolso, uma bússola ou o badalo de um relógio grande, etc.” Baseando-se no fato de que akua também era o nome para a noite da lua cheia, Andrews acrescentou: “Parece que a antiga ideia de um akua incorporava algo incompreensível, poderoso e, no entanto, completo”. A verdade, de importância vital para compreendermos a filosofia e as práticas dos kahunas, é que akua significa “uma ideia em ação plenamente formada”. É uma idéia ativa que manifesta efeitos. As raízes da palavra contêm significados que têm a ver com movimento ou tendência de uma pessoa para fora de si, para uma transformação e uma ação completada. Os kahunas sabiamente utilizavam algumas dessas estruturas idealizadas para a cura. Os quatro maiores akua eram Kane, Ku, Lono e Kanaloa. Se pudermos conceber que um tipo específico de ideia pode ser uma essência energética inteligente, então essas ideias podem legitimamente ser chamadas de deuses; do contrário, não.

Vida e Morte

A palavra havaiana para vida é ola, e a mesma palavra é usada para “um meio de sustento ou renda, curar ou ser curado, bem-estar, bem, salvação, conceder vida”, e outros significados semelhantes. As raízes dão um significado básico de emitir ou encher-se de luz, e os kahunas usam a luz como um símbolo de energia e também de perfeição. Uma ideia fundamental por trás disso é que uma vida saudável, produtiva e satisfatória está intimamente ligada a um contínuo aumento de percepção. Duas outras palavras que significam luz, ea e ha, também têm o sentido de “respiração”, o que exemplifica que o duplo sentido era, aparentemente, comum em muitas filosofias antigas. Além disso, essas duas palavras carregam significados associados ao movimento da água; e a própria água (wai) também é usada como um símbolo da vida. Portanto, a vida é percebida pelos kahunas como algo que flui e se move em ciclos, como a respiração e a água. De fato, uma frase recorrente em lendas e orações do Havaí, wai ola, pode significar igualmente “a água da vida” e “o fluxo da vida”. Do ponto de vista ocidental, parece natural olhar a morte como o oposto da vida, e esperar que a palavra kahuna para ela se refira a uma parada do fluxo. Em vez disso, porém, a filosofia kahuna trata a morte como continuação da vida numa direção ou estado diferente. Isso fica evidente nos significados alternativos para os temas comuns e poéticos para a morte, em havaiano, como vemos a seguir: make loa — “forte desejo por algo ” hiamoe loa — “desejo de um longo sono ” ua makukoa’a’e’oia — “vida que se mantém fluindo ” ala ho’i ole mai — “o caminho sem volta” waiho na iwi — “deixar para trás os ossos” moe kau a ho’oilo — “tempo de sono para germinar (renascimento)” a lele nui ka mauli — “o espírito (ou vida) fluiu ” lele ka hoaka — “o espírito (ou corpo astral) fluiu ” ha’ule — “começar a fazer algo ” Um problema importante para muitos filósofos não é apenas por que a morte ocorre, mas por que naquele momento e daquela forma. Superficialmente, parece uma coisa ilógica, sem padrão ou motivo, mas isso acontece porque a cultura ocidental tende a ver a morte como o fim, algo imposto a nós contra a nossa vontade, e pela qual não temos responsabilidade exceto em caso de suicídio. A visão kahuna é muito diferente. A morte é vista como parte da vida, tão natural quanto a mudança das estações ou a metamorfose de uma lagarta em borboleta. Ela ocorre porque faz parte do contínuo processo de vida. O quando e o como são questões de crença pessoal e cultural. Por exemplo, se você desenvolver a crença de que a velhice é uma coisa horrível, que preferiria morrer a ficar velho, provavelmente morrerá, ainda que tenha de criar subconscientemente uma doença ou um acidente como modo de partir. E, se você tem uma crença profundamente arraigada de que, pode envelhecer com dignidade, de maneira agradável e com boa saúde, provavelmente será um centenário ativo e a sua passagem será tranquila e pacífica quando você sentir que sua vida já se cumpriu. E até o último momento da vida física, uma mudança de crença pode mudar suas circunstâncias. Como frequentemente digo a meus alunos, você tem um propósito e o seu Eu Superior providenciará para que esse propósito seja cumprido, seja em poucas horas ou cem anos, quer você esperneie e berre o tempo todo, quer se divirta e se delicie. Os kahunas não se importam muito com a vida após a morte porque estão mais interessados na experiência da vida presente. De modo geral, a vida após a morte é considerada um lugar para se reavaliar a vida, renovar-se e rever velhos conhecidos, e ter nova experiência e crescimento. O nome para esse estado é Po, e os kahunas dizem que o visitamos todas as noites em sonhos, quando estamos livres do corpo, e também em certos estados de transe. Nós nascemos de Po, visitamos Po regularmente, e a ele retomaremos, talvez para dele nascer novamente. Quando dizemos nós, a referência é ao intelecto e ao corpo (porção Lono/Ku do eu inteiro), pois o Eu Superior (dumakua) existe continuamente em Po. A língua inglesa às vezes é uma ferramenta imprecisa para a discussão de certos aspectos de Huna. E fácil ter-se a impressão de que Po é um lugar, mas isso não é correto. Po é mais como um estado multidimensional existindo simultaneamente e ocupando o mesmo espaço que a vida física. Uma analogia grosseira seria como vários programas de televisão sendo transmitidos à sua volta agora, mas numa forma que você normalmente não percebe. A vida desperta, em vigília, de acordo com Huna, é como se sintonizar a um canal específico da realidade para obter certos tipos de experiência. A comunicação entre Po e Ao (vida desperta) é possível porque a pessoa inteira existe nos dois mundos ao mesmo tempo, e é só uma questão de mudança de percepção. Em alguns contextos, Po também significa “Mente”. A reencarnação faz parte da filosofia kahuna, mas o conceito é radicalmente diferente da maioria dos outros sistemas de pensamento, porque o conceito kahuna de tempo também é radicalmente diferente. Sucintamente, o tempo é uma forma de vibração energética, como o som ou a luz, e que — como eles — possui campos de frequência. Todos os “tempos” estão acontecendo ao mesmo tempo, mas nossos sentidos físicos normalmente restringem nossa percepção a um campo específico que chamamos de presente. Com nossas mentes, somos capazes de transcender limites físicos e ter consciência daquelas porções de nosso eu total que “agora” existem em outros tempos e lugares. O resultado prático desse conceito é que os kahunas não veem a vida presente como o resultado ou efeito de condições numa vida “anterior”. Em suma, eles não aceitam a ideia de uma “dívida cármica”, que a pessoa deve pagar ou compensar por experiências e ações em uma vida passada. Em vez disso, segundo os kahunas, você contém todas as experiências de reencarnação dentro de si, neste momento, na forma de dados mais ou menos latentes, e a sua vida atual consiste em dados latentes para suas outras vidas. Elas o afetam assim como você as afeta. O relacionamento é antes de reflexão paralela que de causa e efeito, e o seu atual sistema de crenças determina partes de suas outras vidas que você pode conhecer. Você pode mudar sua crença, explorando, compreendendo e afetando vidas “passadas”, ou explorando, compreendendo e afetando esta vida. De acordo com os kahunas, tudo é a mesma coisa, e o importante é chegar aos resultados desejados.

Os Kahunas

Kahuna é uma palavra que foi distorcida nos tempos modernos. Originalmente usada para definir um adepto treinado, um guardião e transmissor especializado em conhecimento e poder, ela passou a ser aplicada mais recentemente aos sacerdotes e ministros de religiões ocidentais, paranormais, curandeiros e até líderes de clubes de surfe. Embora isso seja compreensível, pois tais pessoas devem ser especialistas naquilo que sabem, WK afirma que um verdadeiro kahuna é aquele que foi iniciado por um pai natural ou adotivo e treinado para conhecimento esotérico organizado, como parte de um grupo identificável. O uso do termo com o significado de “sacerdotes, ministro ou líder” é uma extensão moderna baseada num erro de interpretação. O mesmo acontece com seu uso para designar para- normais naturais e curandeiros, que podem ou não ter recebido conhecimento dos pais. Os havaianos tinham muitos nomes para indivíduos que usam habilidades psíquicas. Eis alguns: kaula — profeta ou mágico po’ko’i — feiticeiro ho’ola — curandeiro mo’okiko —feiticeiro mau ho’okalakupua — mágico ou adepto kilo’uhane — espiritualista ho ‘ike papulua — paranormal. Os termos eram aplicados a pessoas que exerciam tais poderes sem ser kahunas. Os kahunas podiam fazer as mesmas coisas, mas como especialistas treinados pertencentes a uma ordem tradicional. Nesse caso, o indivíduo seria chamado de kahuna kaula, kahuna ho’ola, etc. Além disso, vários tipos de kahunas eram treinados para ser especialistas em coisas que não consideraríamos esotéricas hoje, tais como navegação, medicina, engenharia e meteorologia. Os kahunas eram os cientistas e especialistas técnicos de sua época, mas seu conhecimento se estendia a campos que mal começam a ser explorados no mundo ocidental em ampla escala. Por exemplo, um navegador seria não apenas tecnicamente habilitado, mas também treinado para se comunicar com o vento e as ondas. Originalmente, não havia uma hierarquia estruturada entre os kahunas, o que ainda se observa em duas das ordens descritas a seguir. Na verdade, as ordens eram e são mais parecidas com as guildas medievais do que com ordens religiosas na tradição ocidental. Um kahuna alcança a proeminência, não por promoção, herança ou eleição, mas sim através do respeito por suas habilidades e conhecimento. A mais alta “posição” a que um kahuna pode aspirar é puhi okaoka, que se refere a um indivíduo bem versado em todos os ramos de conhecimento. Como não possuem autoridade estruturada uns sobre os outros, os kahunas são procurados e seguidos por causa do que são capazes de fazer e do que sabem. Em determinado momento da história, os kahunas se dividiram em três ordens amplamente definidas. Cada uma delas enfatizava uma abordagem específica de conhecimento e prática, mas a diferença tem menos a ver com função do que com técnica. As três utilizavam os elementos de magia descobertos por Max Long, e suas áreas de perícia se sobrepunham consideravelmente. Com isso em mente, examinemos agora cada uma dessas ordens.

A Ordem de Ku

Essa ordem era chamada de “os Emocionais”e enfatiza uma abordagem sensual/emocional da vida. Em termos de cura, os kahunas dessa ordem são mais propensos a usar exercício, massagem e imposição das mãos como métodos de tratamento. Assim como a psicoterapia, essas técnicas trabalham a liberação de emoções reprimidas e a descoberta de eventos passados que desencadearam os problemas atuais. Quanto ao ambiente, a abordagem consiste particularmente em tentar o controle direto de eventos e circunstâncias com a força de vontade e influenciar as emoções das outras pessoas. Esportes, política, comércio e guerra, bem como religião organizada e cerimonial, são os interesses naturais dos kahunas desta ordem. Foi ela que dominou o Havaí após a chegada do poderoso kahuna Paao Samoa, por volta de 1275 d.C. Ele instituiu uma hierarquia estrita na ordem de Ku e introduziu o sacrifício humano, uma prática que decididamente não faz parte da tradição kahuna. Depois da chegada de Paao e do chefe por ele instalado, todo o tráfico entre o Havaí e o mundo exterior cessou, até a vinda do capitão Cook. 

Ordem de Lono

A abordagem desta ordem, os “Intelectuais”, é intelectual/mecânica. No Havaí, ela gerou os médicos e cirurgiões, os agricultores, navegadores, astrônomos e astrólogos, os meteorologistas e os projetistas de navios, que orientavam a construção das grandes canoas oceânicas. Na cura e na psicoterapia, esses kahunas enfatizam o uso de ervas e drogas, dieta e fontes naturais de energia curativa, tais como a luz do sol, sal marinho, cristais e locais especiais descobertos da geomancia (uma forma de adivinhação usando supostas correntes de energia na terra). Eles vêem o ambiente como algo a ser manipulado por meio da compreensão da mecânica de sua operação. No Havaí, essa ordem sofreu muito sob o domínio da Ordem de Ku, e quando os europeus chegaram, boa parte de suas artes já estava perdida.

A Ordem de Kane

Esses “Intuitivos” possuem uma abordagem espiritual/ integrativa. As técnicas usadas pelas outras duas ordens são consideradas ferramentas de uso temporário até se alcançar a compreensão básica de que o mundo exterior é apenas uma reflexão do pensamento. A ênfase é a unificação ou integração de espírito, mente e corpo com o propósito do autocontrole, sendo ele a chave para o domínio da vida. Na cura, a importância básica é dada aos efeitos do pensamento sobre o corpo, e as crenças atuais são consideradas mais influentes do que as experiências passadas. O ambiente é visto como uma extensão do corpo, igualmente influenciado por pensamentos e crenças. A imaginação é a ferramenta mais importante dessa ordem, e boa parte do treinamento diz respeito ao uso disciplinado dela. Esses kahunas trabalham com estados alterados de consciência e o uso refinado das habilidades psíquicas, mais do que as outras ordens. Eles poderiam ser considerados filósofos pragmáticos e, em termos de números, sempre foram menores que os kahunas de Ku e Lono. Na época do domínio de Ku no Havaí, sofreram pouco, pois trabalhavam, por assim dizer, “debaixo da terra”. Eles mantinham contato com o resto do mundo por telepatia. 

Os Renegados

O fenômeno mais temido no Havaí era a “oração de morte”, uma forma de telepatia emocional destrutiva, freqüentemente combinada com sugestão negativa. Quase todos os kahunas que a praticavam eram renegados da ordem de Ku, embora houvesse também feiticeiros não-kahuna que a usavam também. O epíteto mais comum aplicado a eles era kahuna’ai pilau (kahunas que comem imundície). Fosse para ganhar poder sobre outros ou apenas por ganho financeiro, eles usavam seu conhecimento de psiquismo, psicologia e energia emocional para ferir ou matar. Como bem sabia William Brigham, usava-se muito mais do que simples sugestão. A oração de morte podia funcionar mesmo que não houvesse o conhecimento consciente do que estava acontecendo; mas essa prática exigia considerável habilidade por parte do praticante, e sempre que possível a sugestão era usada para facilitá-la. Felizmente, cada ordem tinha um número de kahunas especializados em oki ou kala, formas de magia contrária que anulavam a oração de morte, tornando-a inofensiva. .

Os Kahunas hoje

Atualmente supõem-se não haver no Havaí atualmente mais que vinte e cinco kahunas genuínos, dos quais apenas meia dúzia seria da ordem de Kane. O resto está dividido quase de maneira regular entre Ku e Lono. No entanto, muitos daqueles que se dizem kahunas são apenas paranormais e curandeiros individuais, ou pessoas que dão um show aos turistas. Com poucas exceções, os genuínos kahunas, ou se retiraram totalmente da sociedade ou a ela se integraram, de modo que ninguém sabe quem são ou o que podem fazer. O conhecimento está vivo e operante, mas não é ostensivo. E, ao contrário do que muitos turistas parecem pensar, a ancestralidade havaiana não confere conhecimento kahuna. Mesmo Leinani Melville escreve que praticamente nenhum havaiano ou mestiço havaiano tem a menor compreensão do que é Huna, o conhecimento kahuna. Fora do Havaí, os kahunas também são raros ou se escondem muito bem.