Derrocada e maldição

As acusações proferidas contra os Templários eram exatamente as que o rei Felipe queria escutar. Ele enviou vários espiões para assegurar-se da veracidade das acusações e ao mesmo tempo tratava de garantir o apoio do Papa Clemente V, que devia a Felipe a sua tripla coroa, graças a assistência que o rei francês lhe havia prestado. O Papa ainda assim estava indeciso, “pois são tantas e tão graves as acusações contra os Templários, que parece impossível dar-lhes crédito”, escreveu Clemente ao rei. Mas acrescentava: Mesmo assim, desde que os vossos comunicados sobre esse assunto vão ganhando peso e credibilidade… . Em todo o texto o Papa não proibia a abertura de um processo contra os Templários e assim Felipe não perdeu tempo. Na noite de 12 de outubro de 1307, seus oficiais prenderam em toda Europa cerca de 15.000 pessoas, incluindo-se não só os Templários mas também os artesãos e demais trabalhadores de suas possessões e propriedades. O grão-mestre Jacques de Molay foi preso em Paris.
Todos foram interrogados pela Inquisição e torturados por funcionários do rei num esforço para obter tantas confissões quanto possível. É claro que tais métodos brutais obtiveram êxito. De 138 Templários interrogados em Paris no primeiro mês, 123 “confessaram” haver cuspido sobre um crucifixo durante o seu período de iniciação. Muitos outros responderam afirmativamente a diferentes acusações, ainda que sobre a adoração ao diabo as respostas fossem menos coincidentes. Admitiram que em algumas cerimônias secretas adoravam a um certo tipo de ídolo, porém se esse “ídolo” consistia numa caveira humana rodeada de jóias, ou nos restos mortais de algum grão-mestre, ou numa cabeça com três faces
ou ainda numa representação de Baphomet (corrupção do nome Maomet ou Maomé e termo medieval para designar o “gênio do mal”), é algo que restou sem elucidação.
Na verdade, os algozes dos Templários nunca conseguiram encontrar nenhuma figura idolátrica que correspondesse as descrições arrancadas dos torturados quando se investigou os domínios da ordem na França.
Depois de uma demora considerável devido também às investigações preliminares realizadas pela Igreja católica, o processo público contra os Templários teve início em abril de 1310, na cidade de Vienne, ao sul da França. Muitos Templários se retrataram de suas confissões prévias para defender sua ordem. E eles foram então condenados a fogueira como hereges. Isso obrigou os acusados a absterem-se de sua própria defesa, ao mesmo tempo em que os processos judiciais sofriam longas demoras. Desse modo, dois anos depois da Igreja haver-se feito cargo dos processos para provar a veracidade das acusações contra a ordem, o Papa promulgou uma bula proclamando a dissolução dos Templários. Admitiu, paradoxalmente, que a evidência — baseada essencialmente na Vox populi e em
confissões arrancadas sob tortura — não era adequada e nem suficiente para condená-los. Porém, o Santo Padre estava convencido de sua culpabilidade e isso deveria bastar…
A maioria daqueles que haviam confessado e mantido suas declarações foi colocada em liberdade. Quatro dos mais altos postos da ordem, incluindo o grão mestre que havia se retratado de suas primeiras confissões, voltaram a confessar.
Foram condenados a prisão perpétua e a sentença dos quatro alto dignatários foi pronunciada em público, frente a catedral de Notre Dame em Paris. Ocorreu então um fato surpreendente: Jacques de Molay, o grão-mestre templário, dirigiu-se a multidão com estas palavras: Confesso que na verdade sou culpado de maior infâmia… A infâmia de haver mentido… admitindo acusações repugnantes apresentadas contra minha ordem. Declaro, portanto, que a ordem é inocente. Sua
pureza e santidade jamais foram maculadas. No Tribunal eu havia declarado de outra maneira, fi-lo porém por temor às terríveis torturas…Me ofereceram a vida, mas em câmbio da perfídia… A esse preço, a vida não merece ser vivida….
Um companheiro do grão-mestre, Godofredo de Charnay, proclamou também a inocência da ordem. Seus discursos causaram grande impacto na multidão, que na verdade simpatizava com os Templários, e antes que as coisas pudessem tomar um rumo inesperado, as autoridades trataram de levar os quatro
prisioneiros. E uma vez mais, a coroa francesa tomou as rédeas na condução da farsa contra os Templários. O rei Felipe resolveu encerrar de vez com o assunto dos cavaleiros obstinados e na manhã de 19 de março de 1314 foram levados a fogueira ainda proclamando sua inocência. Quando as chamas já envolviam o corpo do grão mestre Molay, ele voltou a cabeça em direção ao local onde se encontrava o rei gritando:
“Papa Clemente, cavaleiro Guillaume de Nogaret, Rei Felipe…Convoco-os ao Tribunal dos Céus antes que termine o ano, para que recebam vosso justo castigo. Malditos…Malditos…Malditos…Sereis malditos até treze gerações…”.
E quase um mês mais tarde morria o Papa Clemente V. Em novembro, desaparecia o rei Felipe, durante uma partida de caça, e seu ministro Nogaret, que havia desempenhado um grande papel de influência na desaparição da ordem, morreu poucas semanas mais tarde, em circunstâncias misteriosas. 

Mais informações : https://www.youtube.com/watch?v=Dq4BcB6nQSU

A expansão

No ano de 1128, a Ordem não recebeu outras coisas senão donativos e aclamações. Sancionada pelo Concilio de Troyes e isentos agora seus membros da ameaça de excomunhão, ela ganhou renome e poder cada vez maiores. Em qualquer parte da Europa em que se encontrasse Hugo de Payens, nobres e reis competiam por contribuir com atenções e presentes a ordem, através da oferta de grandes extensões de terra, granjas, castelos e até mesmo aldeias e povoações inteiras, que agora vinham a se constituir em sua propriedade, além de armas e cavalos.
Poucos anos mais tarde, a Igreja concedeu aos Templários o direito de possuírem seus próprios templos e sacerdotes. Eles foram igualmente isentos do pagamento de dízimos, assim como de impostos seculares, estando somente sujeitos a autoridade papal. E apesar de tudo, a sua independência e riqueza começou a ser mal vista por bispos e sacerdotes ressentidos com o poder dos Templários, o que deu origem a inúmeras disputas. Porém o Papado, dedicado como estava a fortalecer a presença cristã na Terra Santa, sustentou com energia a Ordem, emitindo decretos seguidos para protegê-la. E de fato, todo aquele que
perseguisse os Templários estava sujeito a excomunhão.
Mesmo na derrota sofrida na segunda cruzada, de 1146 a 1150, a ordem respondeu a confiança que lhe fora depositada, batendo-se bravamente e evitando a catástrofe final que a campanha mal conduzida poderia haver acarretado as hostes cristãs. Nos anos seguintes, os Templários combateram em muitas batalhas, algumas, inclusive, provocadas por eles mesmos.
Mas nem todos os grão-mestres templários que se seguiram a Hugo de Payens foram tão altruístas e piedosos como ele. A política tumultuada que imperava na Terra Santa, onde grupos rivais ao interior dos acampamentos cristãos manobravam as tropas sob seu controle, ofereceu grandes oportunidades aos
Templários para que adquirissem poder e reputação e influíssem assim no curso dos acontecimentos. Eles marchavam sob bandeiras e estandartes que proclamavam em latim. Não a nós, Senhor, senão a Ti seja dada toda a glória. E sem dúvida, ao constituir-se como uma comunidade quase autônoma ao interior do cristianismo e, ainda, como ricos terratenentes, os Templários chegaram a gozar de grande fama e glória entre os seus pares cristãos.
Grande parte de seu poder emanava de sua posição como “banqueiros” na Europa e no Oriente Médio. Com seus castelos bem guarnecidos e estrategicamente situados, encontravam-se os Templários em ótima posição para manejar e transladar dinheiro, com um estatuto religioso que oferecia integridade e
garantia. Nas tréguas faziam inclusive negócios com os próprios inimigos muçulmanos, pois esses acreditavam ser prudente ter algum dinheiro invertido com os cristãos para o caso de que os avatares da guerra pudessem terminar em alguma espécie de pacto ou aliança com os europeus. Os reis da Inglaterra, França e outros países da Europa depositavam seus tesouros e riquezas nas arcas dos Templários e, no que não era incomum ocorrer, pediam até mesmo empréstimos a ordem. Um dos devedores reais dos Templários foi Felipe IV da França, chamado de Felipe, o Belo, mais por seu aspecto agradável do que do senso de justiça propriamente. E foi ele, ironicamente, o homem que ocasionou a destruição da ordem em cooperação com o Papa Clemente V. Nessa época, no começo do século XIV, os Templários haviam perdido suas possessões na Terra Santa e os quartéis-generais da ordem foram transferidos para a ilha de Chipre. Mas mantinham ainda um grande poder na Europa. Felipe IV, imerso numa grave crise financeira provocada por ele próprio, resolveu debilitar o poderio da ordem para apropriar-se de suas riquezas. Delineou então um plano para unir os Templários com os Cavaleiros Hospitalários, formando
assim uma única ordem, a dos Cavaleiros de Jerusalém, cujo grão-mestre seria sempre elegido entre os membros da casa real da França. Porém, tanto os Templários quanto os Cavaleiros Hospitalários se opuseram tenazmente a esse plano. Mas Felipe logrou seus intentos através da ajuda de um ex-templário
chamado Esquiu de Florian, que lhe contou terríveis histórias de blasfêmias, perversão sexual e adoração do diabo dentro da ordem.

Orígens

A situação sócio-política que se verificou no Oriente com o incremento do poderio muçulmano obrigou os príncipes europeus a defender os lugares sagrados da Terra Santa da contínua ameaça muçulmana. Para tal nascem as santas cruzadas e, em seguida, as ordens de cavalaria.
A Ordem do Templo ou dos Templários, a mais poderosa e famosa de todas elas, foi fundada no ano de 1118 por Hugo de Payens e, um ano depois, estabelece-se em Jerusalém, com a finalidade de defender os lugares santos.
Originalmente se chamavam a si próprios de soldados pobres seguidores de Cristo e do Templo de Salomão. Formavam um pequeno grupo de cavaleiros que haviam concebido a idéia de defender e proteger os peregrinos que iam a Terra
Santa. O êxito da primeira cruzada em 1099 havia novamente aberto Jerusalém e outros lugares sagrados aos viajantes europeus, porém a rota estava cercada de perigos. Os muçulmanos emboscavam os infiéis em pontos estratégicos, dizimando os sistematicamente. Foi assim que Hugo de Payens, veterano da primeira cruzada, decidiu formar o grupo dedicado a proteção dos peregrinos. E em seguida aos êxitos obtidos, quando conseguiram por diversas vezes surpreender os muçulmanos antes que eles próprios emboscassem as caravanas cristãs, Hugo de Payens e seu
pequeno grupo de cavaleiros organizaram-se como uma ordem religiosa. Ante o Patriarca de Jerusalém, juraram guardar as estradas e caminhos que conduziam aos lugares santos, protegê-los e abandonar a vida mundana para adotar uma existência de castidade, obediência e pobreza, assim como lutar com a mente pura para o verdadeiro e supremo Rei.
Reconhecendo a possível utilidade desse aguerrido grupo de soldados cristãos, Balduino II, rei de Jerusalém, concedeu-lhes parte do palácio real que se erigia próximo ao Templo de Salomão. Esse foi um dos primeiros donativos, do qual
se seguiram muitos, que foi ofertado aos Templários durante os 200 anos de auge da ordem. Dessa maneira, os Templários acabaram se convertendo numa das forças mais poderosas da Europa e foi o seu imensurável poder que, mais tarde, a levaria a destruição.
Ao princípio, os Templários gozaram de grande estima por sua piedade, bravura e desprezo pelos bens materiais. Tinham honra em não trocar nunca seus mantos até que eles se deteriorassem completamente pelo uso ou fossem atravessados pelas armas dos inimigos. Em contraste com os ricos cavaleiros da época, os Templários raramente se asseavam; suas barbas eram espessas e cerradas, assim como seus cabelos, compridos e sujos. São Bernardo de Claraval, fundador da Ordem Cisterciense, foi o patrono dos Templários. Ele não só aprovava a sua conduta e maneira de viver, como recomendou-lhes a prática de ir buscar os cavaleiros excomungados para converte-los a vida devota e disciplinada de sua
ordem. Enviou a Hugo de Payens, o grão-mestre dos Templários, uma carta rogando a cooperação da ordem para reabilitar “os homens ímpios e empedernidos, ladrões e sacrílegos, assassinos, perjuros e adúlteros”, porém que estivessem dispostos a se alistar nas fileiras da cruzada pela liberação da Terra Santa. Alentado assim por um dos mais influentes de seu tempo, Hugo de Payens partiu em direção ao Concilio de Troyes, na França, para assegurar o reconhecimento de sua ordem na Europa.
Ali, sob o patrocínio e proteção de Bernardo, apresentou a regra de sua irmandade, chamada Regra do Templo, que seguia até certo ponto a Regra da Ordem Cistercense. Ela abarcava todos aspectos da Organização dos Templários, modo de vida, deveres, privilégios e rituais. As cópias da Regra existentes hoje em dia são, na verdade, fragmentárias, uma vez que somente os altos oficiais é que conheciam o seu texto completo. E então, para que um grupo de aventureiros se convertesse numa força unificada, consagrada quase que fanaticamente a um objetivo, os seus fundadores acreditaram ser necessário a instituição de um certo cerimonial secreto, único e exclusivo para a sua ordem. Assim, as investiduras — ou iniciações — ocorriam sempre à noite, em uma sala capitular mantida sob custódia armada. Esse segredo, assim como a crença mantida entre os que eram estranhos a ordem, durante os últimos anos da mesma, no sentido de que ele, o segredo, poderia encobrir práticas lascivas e blasfemas, foi também uma das causas de sua destruição.